Essas tardes em que o meu corpo não sai do lugar
enquanto minha cabeça gira o mundo, passa por tantas e tantas pessoas, livros, casas, coisas e acaba guiada pela fumaça do cigarro, escorrendo lenta no ar, depois sumindo, sumindo e depois eu olhando pra esse lustre colorido que pendurei há tantos meses nesse
teto alaranjado, cor de ano passado e de noites
insones de solidão, com
cházinhos de Camomila, folhas e canetas que de nada adiantavam antes das quatro horas da manhã, talvez a próxima noite seja igual, noite de dor,
dorzinha, dessa que as vezes é bom sentir e que quase grita no nosso ouvido que existe e ela existe mesmo, porque ela é cheia de
poréns, porque ela tem um cheiro que gruda, sabe? Por meses, quem sabe anos. Gruda nas lembranças, nos sonhos. E mais, porque ela tem uma boca e uma
língua e um beijo, que não sai, nunca mais da minha
cabecinhagiramundo, dos movimentos da minha
língua e consegue chegar na minha alma, roubando toda, inteira pra ela. E tem umas mãos que percorrem meu corpo, tira as minhas roupas, anseios, obrigações, atira tudo pro alto,
para os lados da cama. Que vai, volta, não importa se é lua cheia, TPM ou época de provas. E acho que não é mais de dor que eu to falando, é de tardes subindo e descendo naquele elevador barulhento, e todos aqueles desejos que ficavam escondidos no quarto de canto, aqueles olhos que me olhavam cheios de promessas, que me olhavam outra vez querendo dizer
quase nada disso vai acontecer... Que sempre voltam depois de dias e lágrimas... Me fazendo parar às quatro horas da tarde, olhando pro
teto e pra fumaça do cigarro, rodando o mundo e querendo dor,
língua, mãos escorrendo meu corpo e querendo afagar minha alma mais uma vez.